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O muro de Trump

27 jan

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A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos deixou até mesmo os americanos boquiabertos. Depois de um presidente que deixou seu povo respirando com tranquilidade, surge um truculento, disposto a rasgar o mantra americano de liberdade. Dentre seus rompantes, há a ideia da construção de um muro para segregar de vez duas nações.

                Já tivemos uma péssima experiência sobre divisão de países com um muro em 1961. A Alemanha foi dividida em Oriental e Ocidental simplesmente por ideologia político-econômica. A Oriental, com a capital em Berlim, tinha como controladora a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com a morte de Stalin, em 1953, houve uma violenta repressão e 3 milhões de pessoas fugiram para a Alemanha Ocidental. Não bastasse a divisão dos países, a capital Berlim também foi dividida.

                Em 1989, aconteceu a queda do Muro de Berlim. Tal fato representou também a derrubada de uma ideologia socialista que culminou no sofrimento de milhões de pessoas. Não quero defender aqui o capitalismo e suas desigualdades, mas todo regime imposto, seja político, religioso, ideológico ou econômico, tende a não dar certo; tende a levar o sofrimento.

                Com a derrubada do Muro, famílias se reencontraram, amores se reestruturaram, ideais se cruzaram. A Alemanha hoje é uma potência mundial por que teve condições e competência para se reerguer. Por mais que existam duas nações soberanas, México e EUA, a divisão da fronteira entre os dois países não é um marco apenas para a contenção de imigrantes, mas quase que um decreto da falência econômica dos latinos.

                Trump quer obrigar o vizinho a pagar a reforma da sua casa. Quer gastar U$ 20 bilhões e deixar a conta para o mais fraco. Sabe-se que o México depende dos EUA para sobreviver e a superpotência está usando sua influência para rebaixar e forçar os latinos a servi-la. 80% das exportações mexicanas vão para os EUA. Trump já começa a estudar meios para brecar a indústria mexicana por meio de aumento de impostos para produtos importados e redução de alíquotas para produtos nacionais.

                O muro é um símbolo da segregação e intolerância. A fiscalização da imigração poderia ser controlada, aumentada ou o que quer que os interesses americanos defendam, mas jamais o mundo deveria cair nessa onda de superioridade com a qual os EUA agora se blindam. Quem tem coragem de enfrentar Trump? Quem vai se posicionar? Parece que o México está sozinho. O muro não é apenas uma onipotência de fronteiras, mas uma barreira representativa a todos nós, latinos. Retrocedemos.

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Fraudes da humanidade

14 dez

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Sou uma pessoa bastante reflexiva, por momentos até demais. Nesses pensamentos, muitas vezes inúteis, me pego analisando algumas coisas corriqueiras e percebo que a humanidade exalta aquilo que lhe convém e até mesmo chega a ser “maria-vai-com-as-outras”, seja lá de onde esse termo surgiu. A humanidade cria situações, elege suas coisas e objetos, designa aquilo que lhe convém. Vejamos:

  • O limão é um exemplo claro de uma das maiores fraudes da humanidade. É uma fruta pequena, feia e azeda. Não existe limão doce. Não é como o morango: a gente pode até comer um azedo, mas sabe que o outro poderá ser doce como o mel. O morango é lindo, gostoso, combina com tudo e é muito sensual. Nunca vi uma cena sensual num filme na qual os atores usam limão. Imagine a careta e o desestímulo dos atores se o usassem. Além disso, é preciso ter cuidado com a fruta. Ela é perigosa. Além de azeda, feia, pequena, ela machuca. Chega a queimar a pele, deixando manchas que duram meses, só para lembrar a vítima de que tudo é culpa do limão. Eu odeio limão, mas consigo superar! Porém, o limão tem marketing.
  • A pizza de muçarela ou mozarela, mas jamais “mussarela”, é uma fraude. Quem vai à pizzaria e percebe no cardápio dezenas de pizzas com ingredientes sensacionais e pede uma de muçarela só pode estar com sérios problemas. É preferível comer um misto quente ou pão com queijo a uma pizza de muçarela. Ela é inútil. Chega a judiar do gosto. Acho que os pizzaiolos devem rir com ironia a cada pedido de pizza de muçarela. Devem pensar: “temos bacon (a melhor invenção humana), palmito, tomate seco e o cara pede pizza com muçarela!”. E ri! A pizza de muçarela é uma fraude, mas tem um pouco de marketing.
  • O pato é um pobre coitado, não consegue fazer nada certo. Não voa bem, não nada bem, não canta, enfim, não faz absolutamente nada direito… por isso deveria ser deputado. O ovo da pata é muito mais forte do que o da galinha, mas não tem marketing. Ninguém vai ao supermercado comprar ovos de pata e dificilmente vai comer um pato assado no domingo. Nunca vi aquelas máquinas de assar carne assando um pato sequer. Pato não tem marketing. Nem no Natal! A gente come peru, frango gigante, leitoa, cabrito, carneiro, porco em forma de presunto, mas nunca um pato. O pato não tem nenhum marketing. Mais fácil comermos um coelho do que o pato.

Assim caminha a humanidade com suas esquisitices e gostos. Um dia eu vou superar o limão, a pizza de muçarela e o pato. Por enquanto, ninguém me convence de que todos eles são verdadeiras fraudes!

À minha família

20 maio

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A base familiar é responsável por dar suporte à formação do caráter e valorização de princípios éticos e morais. Sem ela, muitas vezes, a vida humana não tem sentido. Princípios que remetem à retidão são essenciais para que, de geração a geração, a sociedade seja cada vez mais honesta e digna. A instituição social “família” é uma das responsáveis pelos alicerces de um povo. Sem ela, dificilmente o indivíduo consegue se alinhar a tais princípios.

          Comumente, fazemos homenagens apenas aos que já partiram, mas, nesse texto, quero venerar aqueles que me deram suporte a ser quem sou hoje. Eis aqui meu reconhecimento por tudo o que fizeram e fazem por mim até hoje. Desde muito pequeno, a imagem que tenho dos meus pais e avós maternos está relacionada ao trabalho. Não me lembro de qualquer um deles ter se ausentado do emprego seja lá por qual motivo. Por muito tempo, meu pai saiu de madrugada, enquanto eu dormia, e chegava à noite, depois que eu já havia pegado no sono.

          Comerciante sem qualquer estudo, ele é um dos homens mais sábios que conheço. Conto nos dedos as pessoas sobre as quais ele teceu algum comentário negativo, e sempre com a razão, pois o tempo provou que ele estava certo. Homem batalhador, tem as mãos calejadas de tanto ofício pesado, no frio e no calor. Sempre disposto a levar o melhor aos filhos, não poupou esforços para que tudo desse certo nas nossas vidas; e ainda nos fazia sorrir.

          Minha mãe começou, ainda adolescente, como balconista de um dos primeiros pontos comerciais de Cruzeiro, a Mercearia Romanelli. “Eu fazia trabalho de homem. Descarregava caminhão e tudo mais”, sempre diz. Filha de uma dona e casa, que morreu seis dias antes de eu defender minha dissertação de Mestrado, e de um charreteiro, fez de tudo para concluir seus estudos, formando-se em História e Geografia pelas Faculdades Integradas de Cruzeiro. Assim, começou a lecionar e aposentou-se como professora da Rede Estadual de Ensino. Mesmo com dois empregos, ainda chegava em casa e “tomava” a lição de mim. Eu tinha a obrigação de saber o livro de cor e salteado. Lembro-me que, numa vez, ela, cansada, se esforçava para checar se eu havia estudado. Nisso eu brincava e ria. Ela pegou, ironicamente, o livro de Educação Moral e Cívica e me acertou três golpes. Aprendi na marra o que é moral a partir desse momento.

          Já errei muito na vida. Tomei muitas decisões erradas e agi por impulso. Como todo ser humano, paguei pelos meus equívocos e aprendi com eles. Porém, nunca fiz algo sem que pensasse nos meus pais, na minha avó, e no meu avô maternos. Este, pouco antes de morrer, pedia para minha mãe ir embora do hospital para cuidar de mim. Eu tinha apenas três anos e nem sabia que ele havia enfartado… nunca mais eu sentaria na charrete de novo.

          Hoje, com erros e acertos, carrego comigo duas frases: “Antes tentar e fracassar do que ficar sentado esperando a chuva cair” e “Junte-se aos bons e será como eles; junte-se aos maus e será pior do que eles”. Assim caminho, à sombra dos meus pais e avós maternos, que sempre foram meus alicerces e espelhos. Talvez jamais eu consiga alcançar a honradez e sucesso deles, mas uma coisa é certa: farei sempre que seus esforços tenham valido a pena. Minha vida tem que valer a pena. Por eles!

Seja você mesmo o medo

5 abr

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Tempos atrás redigi um texto falando sobre o medo, este sentimento que muitas vezes corrói a alma e leva quaisquer animais a se retraírem a ponto de não conseguir fazer mais nada. Com o ser humano é um pouco diferente. À somatória do medo, existem outros sentimentos que podem amplificar a necessidade de sobrevivência ou mesmo repulsa àquilo que, num primeiro instante, pode causar calafrios e até asco.

            Uma barata, por exemplo, pode se tornar um monstro assustador, capaz de devorar a vítima humana de uma vez só. Talvez esse inseto seja o fator de maior causa de pavor na humanidade. Provou-se que ela não é capaz de fazer mal algum a quaisquer pessoas, mas, mesmo assim, espanta.

            Outro caso interessante aparece nas Histórias em Quadrinhos, especificamente na do Batman. Quando criança, o jovem Bruce Wayne viu os pais serem assassinados numa tentativa de assalto, nas ruas de Gotham City. Desesperado e órfão, foi criado pelo mordomo Alfred Pennyworsth. Em uma de suas andanças, encontrou uma caverna e caiu nela. Os morcegos apareceram e, num primeiro momento amedrontado, o jovem refletiu sobre os caminhos a seguir. Por que não usar o seu medo para assustar outras pessoas?

            Foi assim que surgiu a ideia de se tornar um dos heróis mais importantes das HQs: o Homem-Morcego. Antes de atacar, Batman causa medo, ou seja, o próprio medo que sente transferido a outras pessoas que, a priori, não acusariam senti-lo. Eis um dos pontos filosóficos de seu processo de criação. A meu ver, um dos personagens mais densos da cultura geek.

            Há de se permitir sentir o medo. Ele faz bem até certo ponto. Esse sentimento ativa um mecanismo do corpo que nos faz mais aptos à sobrevivência, desde que não trave as ferramentas de movimento. Uma pitada de medo é bom. Mas por que não transferir isso às outras pessoas que merecem senti-lo? Merecem?

            Muitas vezes sim. Por quantas vezes passamos por situações discordantes e acachapantes? Quantas vezes não nos tomamos vencidos pela ira em saber que outra pessoa nos fez sentir mal ou até mesmo que nos fez mal ou mesmo que fez mal a quem amamos? Seria mais prudente fazê-los sentir medo. Um medo que pode levar à reflexão e, por que não dizer, ao conserto do que estava errado. Poderíamos respirar aliviados.

            Melhor do que amedrontar-se, é fazer com que o inimigo sinta os calafrios na alma. Seja você mesmo o medo que não gostaria de sentir.