Crise de identidade

2 mar

crise-identidade

O povo brasileiro merece ser objeto de pesquisas científicas.  É incrível como consegue viver em situações extremamente radicais e ainda achar tempo para comemorar. Deparamo-nos com uma crise político-econômica sem precedentes. A cada dia, o Brasil dá passos para trás. Acreditar em qual político, se quase todos estão com nomes em listas comprometedoras?!

O Brasil é uma das dez potências mundiais; reconhecidamente é uma força dentre os países economicamente produtivos. O setor turístico é inigualável e atrai milhões de pessoas, porém não aproveita o marketing adequado. A grandeza territorial é um dos fatores para proporcionar uma variedade cultural e belezas naturais incomparáveis. Porém…

            O Poder Público é ineficiente demais e, por isso, não consegue administrar um povo carente pelos bens necessários e indiscutíveis, como educação, saúde, moradia, transporte, lazer… Vivemos uma história recente que nos reafirma diariamente a fragilidade de um regime democrático incompetente e cheio de falhas. O poder jamais emanou do povo. Aliás, parece que os brasileiros ou gostam de ser ludibriados ou de tanto sofrerem enganações já estão calejados e não se preocupam mais com o que pode acontecer.

            Em 2013, quando explodiram as manifestações populares por conta dos famigerados 20 centavos, acreditou-se que a luta era por direitos básicos para a população. Tudo balela! Em meio aos transtornos administrativos causados pelo Governo Dilma Rousseff, buscou-se uma maneira de criar situações para protestar e bater panelas. A presidente caiu e outro assumiu seu posto.

       Vemos dia após dia as mazelas administrativas e a falta de atenção ao povo, principalmente aos mais carentes. E é surreal perceber o quão inócua a população se apresenta frente aos ditames apregoados pela nova gestão federal. Como aceitar um governo que atesta todos os dias, claramente, que ascendeu ao poder apenas para se safar de constantes e graves denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro?! Todavia, agora, ninguém mais protesta; parece que está tudo muito bem.

            O brasileiro vive uma crise de identidade sem precedentes. Preparou-se para curtir e desfrutar do Carnaval, pouco se importando com os rumos que o futuro poderá tomar. Triste realidade de um país que vive maculado pela inércia, tornando-se, assim, uma piada de mau gosto. O que importa é a Portela campeã e nada mais.

O muro de Trump

27 jan

trump

A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos deixou até mesmo os americanos boquiabertos. Depois de um presidente que deixou seu povo respirando com tranquilidade, surge um truculento, disposto a rasgar o mantra americano de liberdade. Dentre seus rompantes, há a ideia da construção de um muro para segregar de vez duas nações.

                Já tivemos uma péssima experiência sobre divisão de países com um muro em 1961. A Alemanha foi dividida em Oriental e Ocidental simplesmente por ideologia político-econômica. A Oriental, com a capital em Berlim, tinha como controladora a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Com a morte de Stalin, em 1953, houve uma violenta repressão e 3 milhões de pessoas fugiram para a Alemanha Ocidental. Não bastasse a divisão dos países, a capital Berlim também foi dividida.

                Em 1989, aconteceu a queda do Muro de Berlim. Tal fato representou também a derrubada de uma ideologia socialista que culminou no sofrimento de milhões de pessoas. Não quero defender aqui o capitalismo e suas desigualdades, mas todo regime imposto, seja político, religioso, ideológico ou econômico, tende a não dar certo; tende a levar o sofrimento.

                Com a derrubada do Muro, famílias se reencontraram, amores se reestruturaram, ideais se cruzaram. A Alemanha hoje é uma potência mundial por que teve condições e competência para se reerguer. Por mais que existam duas nações soberanas, México e EUA, a divisão da fronteira entre os dois países não é um marco apenas para a contenção de imigrantes, mas quase que um decreto da falência econômica dos latinos.

                Trump quer obrigar o vizinho a pagar a reforma da sua casa. Quer gastar U$ 20 bilhões e deixar a conta para o mais fraco. Sabe-se que o México depende dos EUA para sobreviver e a superpotência está usando sua influência para rebaixar e forçar os latinos a servi-la. 80% das exportações mexicanas vão para os EUA. Trump já começa a estudar meios para brecar a indústria mexicana por meio de aumento de impostos para produtos importados e redução de alíquotas para produtos nacionais.

                O muro é um símbolo da segregação e intolerância. A fiscalização da imigração poderia ser controlada, aumentada ou o que quer que os interesses americanos defendam, mas jamais o mundo deveria cair nessa onda de superioridade com a qual os EUA agora se blindam. Quem tem coragem de enfrentar Trump? Quem vai se posicionar? Parece que o México está sozinho. O muro não é apenas uma onipotência de fronteiras, mas uma barreira representativa a todos nós, latinos. Retrocedemos.

Fraudes da humanidade

14 dez

hqdefault

 

Sou uma pessoa bastante reflexiva, por momentos até demais. Nesses pensamentos, muitas vezes inúteis, me pego analisando algumas coisas corriqueiras e percebo que a humanidade exalta aquilo que lhe convém e até mesmo chega a ser “maria-vai-com-as-outras”, seja lá de onde esse termo surgiu. A humanidade cria situações, elege suas coisas e objetos, designa aquilo que lhe convém. Vejamos:

  • O limão é um exemplo claro de uma das maiores fraudes da humanidade. É uma fruta pequena, feia e azeda. Não existe limão doce. Não é como o morango: a gente pode até comer um azedo, mas sabe que o outro poderá ser doce como o mel. O morango é lindo, gostoso, combina com tudo e é muito sensual. Nunca vi uma cena sensual num filme na qual os atores usam limão. Imagine a careta e o desestímulo dos atores se o usassem. Além disso, é preciso ter cuidado com a fruta. Ela é perigosa. Além de azeda, feia, pequena, ela machuca. Chega a queimar a pele, deixando manchas que duram meses, só para lembrar a vítima de que tudo é culpa do limão. Eu odeio limão, mas consigo superar! Porém, o limão tem marketing.
  • A pizza de muçarela ou mozarela, mas jamais “mussarela”, é uma fraude. Quem vai à pizzaria e percebe no cardápio dezenas de pizzas com ingredientes sensacionais e pede uma de muçarela só pode estar com sérios problemas. É preferível comer um misto quente ou pão com queijo a uma pizza de muçarela. Ela é inútil. Chega a judiar do gosto. Acho que os pizzaiolos devem rir com ironia a cada pedido de pizza de muçarela. Devem pensar: “temos bacon (a melhor invenção humana), palmito, tomate seco e o cara pede pizza com muçarela!”. E ri! A pizza de muçarela é uma fraude, mas tem um pouco de marketing.
  • O pato é um pobre coitado, não consegue fazer nada certo. Não voa bem, não nada bem, não canta, enfim, não faz absolutamente nada direito… por isso deveria ser deputado. O ovo da pata é muito mais forte do que o da galinha, mas não tem marketing. Ninguém vai ao supermercado comprar ovos de pata e dificilmente vai comer um pato assado no domingo. Nunca vi aquelas máquinas de assar carne assando um pato sequer. Pato não tem marketing. Nem no Natal! A gente come peru, frango gigante, leitoa, cabrito, carneiro, porco em forma de presunto, mas nunca um pato. O pato não tem nenhum marketing. Mais fácil comermos um coelho do que o pato.

Assim caminha a humanidade com suas esquisitices e gostos. Um dia eu vou superar o limão, a pizza de muçarela e o pato. Por enquanto, ninguém me convence de que todos eles são verdadeiras fraudes!

O insustentável peso da decepção

25 out

decepcao

Viver é um constante desafio. Os percalços da vida calejam sempre a alma da gente de maneira que consigamos nos tornar cada dia mais fortes. Temos escolhas e estas podem nos mostrar caminhos cada vez mais tortuosos, mas, certamente, todos eles dão em algum lugar. Há gente que diz que quanto mais difícil for a caminhada, mais engrandecedora será a conquista.

            Nossa vida é repleta de felicidades, tristezas, amores, ódios, amarguras, dores, satisfações, pecados… mas nada é mais cruel do que a decepção. Esse sentimento é ululantemente devastador. A decepção só vem de quem a gente gosta. Ela só aparece quando pessoas nas quais depositamos toda nossa confiança nos desapontam. E o mais duro de tudo é que muitas vezes as pessoas tinham a real intenção de nos desapontar.

            Nada é mais belo do que saber conviver com as diferenças. Os seres humanos são mágicos nisso. Os outros animais são, instintivamente, iguais. Praticamente nascem sabendo o que fazer. Nós não. “O homem é produto do meio”, disse Rousseau. Invariavelmente, o ambiente o leva a ser ou a fazer. Contestável ou não, aquilo que somos pode ser relacionado ao lugar no qual vivemos.

            Condenado a ser livre, o ser humano faz o que bem entende, sempre depositando a mea culpa no livre-arbítrio. Assim, há vários caminhos: alegrias, tristezas e decepções. O mais triste é que as decepções são, quase sempre, frutos da nossa vontade. Parece que sabemos que algo está errado e mesmo assim continuamos.

            A decepção chega quando menos se espera. Traiçoeira, leva tudo o que temos num piscar de olhos. A recuperação é lenta e dolorida. A ferida demora a cicatrizar… quando cicatriza. A gente vai resistindo, resistindo e percebendo o quanto as pessoas são antitéticas. Ao mesmo tempo em que praticam bondade conseguem ser maldosas.

            Quiçá chegue um tempo em que não nos decepcionemos mais pela simples razão de não nos darmos a chance de esperar. Esperar no sentido mais amplo. Quem espera pode se perder. E essa perda levará sempre à decepção. Sigamos a reflexão deixada por Machado de Assis: “Não há decepções possíveis para um viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio”. Oxalá!