O insustentável peso da decepção

25 out

decepcao

Viver é um constante desafio. Os percalços da vida calejam sempre a alma da gente de maneira que consigamos nos tornar cada dia mais fortes. Temos escolhas e estas podem nos mostrar caminhos cada vez mais tortuosos, mas, certamente, todos eles dão em algum lugar. Há gente que diz que quanto mais difícil for a caminhada, mais engrandecedora será a conquista.

            Nossa vida é repleta de felicidades, tristezas, amores, ódios, amarguras, dores, satisfações, pecados… mas nada é mais cruel do que a decepção. Esse sentimento é ululantemente devastador. A decepção só vem de quem a gente gosta. Ela só aparece quando pessoas nas quais depositamos toda nossa confiança nos desapontam. E o mais duro de tudo é que muitas vezes as pessoas tinham a real intenção de nos desapontar.

            Nada é mais belo do que saber conviver com as diferenças. Os seres humanos são mágicos nisso. Os outros animais são, instintivamente, iguais. Praticamente nascem sabendo o que fazer. Nós não. “O homem é produto do meio”, disse Rousseau. Invariavelmente, o ambiente o leva a ser ou a fazer. Contestável ou não, aquilo que somos pode ser relacionado ao lugar no qual vivemos.

            Condenado a ser livre, o ser humano faz o que bem entende, sempre depositando a mea culpa no livre-arbítrio. Assim, há vários caminhos: alegrias, tristezas e decepções. O mais triste é que as decepções são, quase sempre, frutos da nossa vontade. Parece que sabemos que algo está errado e mesmo assim continuamos.

            A decepção chega quando menos se espera. Traiçoeira, leva tudo o que temos num piscar de olhos. A recuperação é lenta e dolorida. A ferida demora a cicatrizar… quando cicatriza. A gente vai resistindo, resistindo e percebendo o quanto as pessoas são antitéticas. Ao mesmo tempo em que praticam bondade conseguem ser maldosas.

            Quiçá chegue um tempo em que não nos decepcionemos mais pela simples razão de não nos darmos a chance de esperar. Esperar no sentido mais amplo. Quem espera pode se perder. E essa perda levará sempre à decepção. Sigamos a reflexão deixada por Machado de Assis: “Não há decepções possíveis para um viajante, que apenas vê de passagem o lado belo da natureza humana e não ganha tempo de conhecer-lhe o lado feio”. Oxalá!

 

 

Todo mundo tem um Temer na vida

30 ago

               traição amigo

Quem nunca teve um amigo muito legal que, numa hora de desespero, traiu a confiança? Aquele amigo que sorri, que sempre aparece todo faceiro, nos faz rir e aconselha a isso ou aquilo… de tão companheiro, você conta todos os seus segredos e ainda pede a opinião para saber quais os caminhos a tomar.

           Sabe aquelas vezes em que se está triste, precisando de um ombro amigo e só um nome vem à cabeça? Quando se está junto normalmente é só risada e a barriga até dói? Pois é! Todo mundo tem um amigo assim. Mas parece que o tempo vai passando e a sociedade corrompendo o indivíduo até que ele começa a pensar nele próprio. Esquece tudo o que passou e as coisas boas que viveram juntos para buscar apenas os objetivos pessoais.

            Ah! O poder corrompe e já que o “homem é o lobo do homem”, é muito mais claro perceber que os anseios pessoais são colocados à frente da ética e da moral. O que é ser humano na mais fiel vertente niilista? O que um ser humano faz para ser um bom selvagem, como Rousseau defendeu em uma de suas teses?

            Se também somos produto do meio, o que nos faz resistir às tentações e elevar exemplos de honra e dignidade? Instituições sociais como família, religião, língua são suficientes?

            O que vemos, hoje, no Brasil, é exemplo claro de busca pelo poder a qualquer custo. Todo mundo tem um Michel Temer na vida e sem mais nem menos ele se revela. O mais dolorido de tudo é que esse Temer se julga dono da verdade e se intitula o salvador de tudo e de todos.

            Todo mundo tem um Michel Temer na vida. Talvez ele seja colocado para que provemos para nós mesmos que somos fortes e resilientes. Nenhum fardo é maior do que aquele que somos incumbidos de carregar. Quantos “Temers” aparecem no nosso caminho como obstáculos? “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. E quantas pedras!!!

            Estamos revelando ao mundo um péssimo exemplo de como não fazer política. O impeachment da presidente eleita Dilma é uma afronta a todos os princípios democráticos e, acima de tudo, éticos. Tinha um Temer no meio do caminho. E o pior de tudo é que todos nós temos um monte de “Temers” no nosso caminho. Amigo da onça!

À minha família

20 maio

seguir-exemplo

A base familiar é responsável por dar suporte à formação do caráter e valorização de princípios éticos e morais. Sem ela, muitas vezes, a vida humana não tem sentido. Princípios que remetem à retidão são essenciais para que, de geração a geração, a sociedade seja cada vez mais honesta e digna. A instituição social “família” é uma das responsáveis pelos alicerces de um povo. Sem ela, dificilmente o indivíduo consegue se alinhar a tais princípios.

          Comumente, fazemos homenagens apenas aos que já partiram, mas, nesse texto, quero venerar aqueles que me deram suporte a ser quem sou hoje. Eis aqui meu reconhecimento por tudo o que fizeram e fazem por mim até hoje. Desde muito pequeno, a imagem que tenho dos meus pais e avós maternos está relacionada ao trabalho. Não me lembro de qualquer um deles ter se ausentado do emprego seja lá por qual motivo. Por muito tempo, meu pai saiu de madrugada, enquanto eu dormia, e chegava à noite, depois que eu já havia pegado no sono.

          Comerciante sem qualquer estudo, ele é um dos homens mais sábios que conheço. Conto nos dedos as pessoas sobre as quais ele teceu algum comentário negativo, e sempre com a razão, pois o tempo provou que ele estava certo. Homem batalhador, tem as mãos calejadas de tanto ofício pesado, no frio e no calor. Sempre disposto a levar o melhor aos filhos, não poupou esforços para que tudo desse certo nas nossas vidas; e ainda nos fazia sorrir.

          Minha mãe começou, ainda adolescente, como balconista de um dos primeiros pontos comerciais de Cruzeiro, a Mercearia Romanelli. “Eu fazia trabalho de homem. Descarregava caminhão e tudo mais”, sempre diz. Filha de uma dona e casa, que morreu seis dias antes de eu defender minha dissertação de Mestrado, e de um charreteiro, fez de tudo para concluir seus estudos, formando-se em História e Geografia pelas Faculdades Integradas de Cruzeiro. Assim, começou a lecionar e aposentou-se como professora da Rede Estadual de Ensino. Mesmo com dois empregos, ainda chegava em casa e “tomava” a lição de mim. Eu tinha a obrigação de saber o livro de cor e salteado. Lembro-me que, numa vez, ela, cansada, se esforçava para checar se eu havia estudado. Nisso eu brincava e ria. Ela pegou, ironicamente, o livro de Educação Moral e Cívica e me acertou três golpes. Aprendi na marra o que é moral a partir desse momento.

          Já errei muito na vida. Tomei muitas decisões erradas e agi por impulso. Como todo ser humano, paguei pelos meus equívocos e aprendi com eles. Porém, nunca fiz algo sem que pensasse nos meus pais, na minha avó, e no meu avô maternos. Este, pouco antes de morrer, pedia para minha mãe ir embora do hospital para cuidar de mim. Eu tinha apenas três anos e nem sabia que ele havia enfartado… nunca mais eu sentaria na charrete de novo.

          Hoje, com erros e acertos, carrego comigo duas frases: “Antes tentar e fracassar do que ficar sentado esperando a chuva cair” e “Junte-se aos bons e será como eles; junte-se aos maus e será pior do que eles”. Assim caminho, à sombra dos meus pais e avós maternos, que sempre foram meus alicerces e espelhos. Talvez jamais eu consiga alcançar a honradez e sucesso deles, mas uma coisa é certa: farei sempre que seus esforços tenham valido a pena. Minha vida tem que valer a pena. Por eles!

Impeachment, Bolsonaro e outras guerras

25 abr

loucura

           Tempos quentes no Brasil. Parece que um tsunami de egos pairou em todos os setores sociais, principalmente na política. Esses fica ou não fica, quem vai e quem vem, estão tornando a vida dos brasileiros uma verdadeira balbúrdia; o que não poderia ser diferente num país que, logo de cara, foi apresentado ao suborno que os portugueses cometeram, em 22 de abril de 1.500, para ludibriarem os índios. “Um espelhinho para me dar passagem, caro selvagem!”

           No domingo, dia da votação pela aprovação ou não do impeachment  da presidente Dilma Rousseff, foi nítida a comprovação da tese de que “pau que nasce torto nunca se endireita”. Confesso que eu tinha uma noção de que nossos parlamentares eram horríveis, mas, ao acompanhar a votação, um a um, percebi que são piores do que pensei.

            Se o Congresso Nacional é uma representação do povo brasileiro, estaríamos num barco furado, à deriva, no meio de uma tempestade… sem gps. Lembrei-me daquele padre que amarrou em si os balões e não sabia usar o gps nem os aparelhos de comunicação. Talvez tenha ido parar na Lua. O padre é o povo, os balões, os parlamentares e os aparelhos, o processo de impeachment.

            O Brasil vive uma guerra ideológica entre os que não entendem nada de política e outros que defendem o afastamento por impedimento da presidente; ou os que compreendem a história do Brasil e aqueles que nunca leram um livro e defendem o Bolsonaro. Talvez, “nunca antes na história desse país”, nos deparamos com uma sociedade tão segregada ideologicamente. Uma cusparada é mais tendenciosa do que a negativa de atendimento de saúde feita por uma médica a um petista. “É petista? Então merece morrer queimado no mármore do inferno”. Zé de Abreu, cuspa aqui!

            Nunca votei no PT, mas o que o Brasil vive é uma verdadeira piada de mau gosto. A presidente, responsável por um dos piores governos da história recente, não deveria sofrer esse processo. Isso mesmo! Não deveria! Há outros meios que não ferem a lei para serem determinados, como o cancelamento da coligação pelo Tribunal Superior Eleitoral, já que Dilma e Temer receberam dinheiro como Caixa 2, assim como outros tantos candidatos.

            O sentido da palavra “Parlamento” é “lugar no qual se FALA”. E foram ditas tantas abobrinhas que nenhum agricultor, por mais talentoso que fosse, conseguiria cuidar. Bolsonaro invocou um torturador desgraçado, outro deu parabéns à filha, a outra pediu o fim da corrupção e o marido foi preso no dia seguinte…

           Paulo Maluf votou contra a corrupção!!! Isso sim é um estopim para um conflito interno de proporções freudianas. O Temer pode ser presidente sem ter recebido um voto sequer (o que corresponde à terceira vez que o PMDB chega lá dessa forma – Sarney, Itamar e, ao que tudo indica, Temer). Dos 513 deputados eleitos, apenas 36 foram por votação direta; os outros entraram pela legenda. Pode isso? Aqui pode! É lei!

             “Que país é esse?”, já perguntava o saudoso Renato Russo. Não sei responder. O Brasil, de tão peculiar, por vezes chega a dar nojo. Cazuza bem disse: “Meus inimigos estão no poder”; e percebi claramente que estão mesmo. Ali ninguém quer saber de mim, de nós; quer mesmo é saber do “pelo isso, pelo aquilo”. Em meio a tantas guerras, resta-nos pensar na canção: “Pelos campos há fome em grandes plantações, pelas ruas marchando, indecisos cordões”.  Muita gente defendendo partido A ou B, e os negrinhos estão logo ali, morrendo de fome com tanta riqueza. “Vem, vamos embora que esperar não é saber”. Eu já fui!