Cristiano Araújo e a mitificação

2 jul

CristianoAntes de tirar conclusões a respeito do texto, aviso de antemão que a tese a ser defendida não vilipendia a morte do cantor Cristiano Araújo, pelo contrário. A intenção é refletir sobre a forma instintiva como os seres humanos tornam pessoas com um pouco mais de visibilidade em mitos.

          A palavra mito significa relatos heroicos realizados pelos gregos antigos. Nessas histórias, exaltavam-se heróis e tentava-se explicar a realidade, os fenômenos naturais, a gênese do mundo, enfim, tudo aquilo que não era compreendido por eles.

          A simbologia representava a essência da figura analisada. Nem sempre a representação era fundamentada. Qualquer ser ou criação poderia ser transformado em mito quando a própria cultura daquele povo permitia que acontecesse. Obviamente, naquele tempo as tradições se duravam mais, já que os meios de comunicação eram primitivos e a renovação era demorada.

          Hoje, o poder do marketing e da mídia em geral tem a capacidade de transformar seres comuns em mitos. Sem nenhuma comparação, podemos citar, a priori, a morte do piloto Ayrton Senna. Houve uma comoção nacional pela perda do maior piloto de Fórmula 1 que o Brasil já teve. A movimentação ocorreu anda mais pelo fim trágico do esportista. Ainda hoje, sua imagem é uma das mais usadas para vendas de produtos e serviços. A marca Ayrton Senna é sinônimo de vitória e confiabilidade.

          Recentemente, o cantor sertanejo Cristiano Araújo, na volta de um show, morreu por consequência de um acidente automobilístico gravíssimo. A tragédia do fato alçou-o a uma condição de celebridade nacional. Não discuto que a música dele não tenha chegado ao grande público, pois isso aconteceu. Mas a superexposição do acontecido, com pitadas de lirismo shakespeariano no qual o mocinho permaneceu com o amor da sua vida até o fim, tornou-o um herói.

          Talvez seja um exagero considerar o cantor um mito. Porém, o fato de ele ter sido alçado à condição de astro pela tragédia e fama de bom moço romântico, deram-lhe a oportunidade, pos mortem, de torná-lo um ser especial.

          Não é possível analisar a causa com exatidão, por isso tratamos do mito em si. Como todo fenômeno que não possa ser explicado causa espanto ou reflexões, a morte de Cristiano não chegou a parar o país, mas comoveu quem o conhecia e aos que não o conheciam surgiu a indagação: “Quem é Cristiano Araújo?”. Quase todos falamos alguma coisa sobre ele e o tornamos um herói em ascensão. Eis a mitificação!

3 Respostas to “Cristiano Araújo e a mitificação”

  1. Pedro Nunes julho 2, 2015 às 9:15 pm #

    Excelente texto miguel… a população brasileira “mistifica” uma pessoa que faz sucesso ao falecer; entretanto esquece muitas pessoas morrem diariamente pelas mais diferentes causas, isso sugere que todas essas pessoas estão no esquecimento de uma sociedade que peca em todos os sentidos.

  2. Joao felipe julho 2, 2015 às 9:18 pm #

    Penso que a ênfase não está no trabalho do referido cantor, mas na comoção popular. Também não acho que estamos carentes de heróis, pelo contrário, temos muitos, pois cada brasileiro que vive de forma honesta, integra, é verdadeiramente um herói em meio a tantos desencontros sociais e morais em nosso país. A dor maior, pela perda do senhor Cristiano Araujo e sua namorada, restringe exclusivamente aos familiares, portanto, respeitemos os sentimentos destes e a memoria daqueles . O povo brasileiro tem como característica ser muito emotivo. Em momentos como esses aflora a sensibilidade emocional brasileira. Cada pai, mãe, irmão numa hora como essa se vê no lugar dos familiares daquele que, cremos, morreu “precocemente”. Para os fãs, morre com o artista seus sonhos e emoções pessoais que eram projetados nele. Portanto, fãs ou não, respeitemos os sentimentos dos familiares e da queles que apreciavam o estilo, obra e sentimentos do cantor expresso em seu trabalho musical. Quanto a cultura, não há pobreza, pelo contrário essa é emoldurada por louros dourados, toda culta é rica, seja ela pop ou não. Quanto aos críticos facultemos a liberdade de expressão.

  3. Juliana Duque julho 3, 2015 às 9:22 pm #

    Miguel por que você tem que ser perfeito, tbm quero.
    Que texto maravilhoso, e muito bem elaborado, parabéns

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