Retrato do passado – Daniela Calfat Maldaun Duarte (9º ano – INSA-Cruzeiro/SP)

9 jun
daniela
         A manhã estava nublada. O vento era gélido a ponto de rasgar a alma. No alto de uma torre, uma mulher estava parada. Seu cabelo era acaju, com algumas mechas cinzas. O rosto, de uma palidez anormal, e seus olhos, azuis e frios. Era de se esperar que fosse bela, mas trazia consigo uma deformação inexplicável, que incomodava a todos os que estivessem em sua presença. Seu olhar sem brilho estava focado no horizonte, e ela, perdida em devaneios e lembranças nostálgicas. Tinha olheiras profundas que denunciavam várias noites perdidas no tempo.
          A mulher moveu-se como um fantasma. Virou as costas vagarosamente para as montanhas e pôs-se a andar ao redor no pequeno cômodo. Caminhava como se não tivesse pés, deslizando sua túnica branca pela madeira do chão. Não fazia ruído algum. Com as mãos trêmulas abriu a porta, que rangeu de uma forma hostil. Dirigiu-se até uma longa escada com degraus de pinheiro, que rangiam conforme ela descia.
              Sua mão deslizava suavemente pela madeira polida e arranhada do corrimão. Para sua aparente fragilidade, descia as escadas com uma rapidez impressionante. De repente, foi diminuindo a velocidade de seus passos, até parar no meio do caminho. Respirou fundo e tossiu sonoramente, denunciando um organismo danificado e adoecido. Ameaçou cair, mas o pouco que restava de sua energia permitiu-a readquirir a postura habitual, com as costas eretas e apoiando-se na parede branca com tinta descascada.
           Um espelho localizava-se pregado na parede do lado esquerdo. Ela observou seu reflexo, porém logo desviou o olhar, receosa de ver sua definhação. O tempo havia passado, levando junto a beleza, a disposição e as alegrias. A mulher continuou andando, agora ainda mais abatida depois de ter visualizado sua atual aparência.Finalmente chegou ao andar térreo, aparentando tal fragilidade que parecia desmoronar a qualquer momento. Com dificuldade, ela dirigiu-se à sala. Era um cômodo belíssimo, que abrigava uma decoração vitoriana, regada a peças antigas e belas.
        A mulher desviou dos diversos móveis até chegar numa simples poltrona velha. Sentou-se lentamente e fechou os olhos. Uma mesinha de madeira com tampa de mármore branco sustentava um abajur que iluminava o rosto dela. Ao abrir os olhos, convergiu o olhar para um quadro, no qual um belo homem fora retratado. As pinceladas foram rápidas e a moldura da tela era de ouro maciço. O rapaz tinha um sorriso sutil e olhos verdes marcantes. Os cabelos eram castanhos e ondulados que contornavam o rosto, dando a ele uma beleza indescritível.
         Uma lágrima brilhante escorria pela bochecha pálida da mulher. Ela sorria tristemente observando o homem do quadro. Ela fechou os olhos e cruzou os dedos sobre a barriga. Seus dedos dos pés contorciam-se sobre o tapete de origem persa, numa tentativa inútil de aquecê-los. Ela abriu os olhos novamente e levantou-se com dificuldade, apoiando as mãos no braço da poltrona. Andou até parar em frente ao quadro; tocou-o com seus dedos compridos, finos e gélidos. Sua mão deslizava pela pintura com carinho e suavidade. Fechou os olhos novamente, lembrando-se de épocas passadas. Involuntariamente, ela sorriu, talvez pela última vez.

2 Respostas to “Retrato do passado – Daniela Calfat Maldaun Duarte (9º ano – INSA-Cruzeiro/SP)”

  1. Milene junho 10, 2013 às 5:47 pm #

    Amei!!! A descrição é tão brilhante, que a cena chega a ser visível e palpável!!!
    Milene

  2. Samara Raquel Fernandes do nascimento novembro 14, 2013 às 9:14 pm #

    Linda Daniela!!! Me senti orgulhosa de vc !
    Beijos.
    Samara Raquel

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