O racismo e a hipocrisia

31 out

O Brasil é um país muito rico quando tratamos de literatura. Temos escritores grandiosos, reconhecidos pelos quatro cantos do mundo. Obras magníficas que marcaram época e registraram o pensamento e ideais de um povo. Desde a escrita da carta de Pero Vaz de Caminha, nunca se deixou de impulsionar o nascimento de novos artistas do texto.

Em cada escola literária, período no qual os escritores convergem características, notam-se homens e mulheres cujo dom de escrever transcende os limites do uso comum.

Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa foram alguns dos principais nomes. O primeiro criou um novo estilo de narrativa, não-linear. O Alencar foi um grande romancista. Graciliano retratou a análise psicológica dos seus heróis problemáticos como ninguém jamais o fez. Rosa transformou o sertão mineiro numa grande moldura para o mundo.

Porém, a recente discussão tende a retirada ou não das escolas públicas de uma obra específica do maior escritor infanto-juvenil do Brasil: Monteiro Lobato. “Caçadas de Pedrinho” é acusada de promover o racismo aos alunos do Ensino Fundamental de todo o país.

Monteiro Lobato é natural de Tremembé. Nasceu na fazenda do avô paterno e foi criado num ambiente escravocrata. Promotor de Justiça na cidade de Areias – Vale Histórico – cultivou inimigos de todas as instâncias, desde simples munícipes até o presidente da República Getúlio Vargas, com o qual polemizou sobre as questões do petróleo.

A artista Anita Malfatti também foi alvo de suas críticas. Lobato publicou, no jornal O Estado de São Paulo, o texto “Paranoia ou mistificação?” detonando a obra da pintora.

Na obra ‘Caçadas de Pedrinho”, expôs a tia Nastácia, negra retinta, trabalhadora do Sítio do Picapau Amarelo, a condições vexatórias e racistas. É indiscutível que o autor era racista. Tal fato se prova pelas cartas que escreveu a amigos, publicadas em uma das edições da revista Bravo do ano passado. Nelas, o escritor afirma coisas do tipo; “lugar onde há muitos negros não há evolução”, “O Brasil só vai evoluir caso crie uma instituição como a Ku Klux Klan” e mais escabrosidades.

“Tia Nastácia subiu no mastro como um macaco”, “carne preta da Tia Nastácia” coisas do tipo estão espalhadas pela obra em questão. Ninguém aqui é favorável a qualquer ato racista. Mas Lobato viveu numa sociedade que promovia a desigualdade de raças, e assim transportou essa ideologia para sua obra. Retirar o livro das escolas é carimbar a característica hipócrita do brasileiro, cujo falso moralismo é a válvula propulsora das questões sociais.

Os professores devem contextualizar a obra e expor aos alunos que a prática do racismo é inaceitável. Mas também se deve discutir a importância de Lobato para a Cultura Brasileira. Se o livro for retirado das escolas, as imensas bundas de mulatas, loiras e morenas continuarão expostas, aos domingos, por todo o dia na televisão. Citar a obra como a única fonte do problema é deixar passar outros tantos quiproquós que até Deus duvida.

Preparemos melhor nossos professores para que eles ensinem melhor as crianças. Estas serão os deputados, senadores e políticos em geral, que tanto querem se gabar a discutir imbecilidades como a censura velada à obra. Essa é a grande questão.

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