Quando o cinza consegue colorir a alma

2 out

Não li o livro “Cinquenta tons de cinza”, de E. L. James, mas confesso que estou me motivando a ler. Parece que toda mulher ao meu redor comenta sobre esse romance erótico que se tornou o livro mais vendido da atualidade. Minhas alunas, nas salas de aula, por vezes são surpreendidas por mim quando falam sobre os atos do tal Christian Grey, personagem importante. Assim, resolvi pesquisar a respeito. Como foi que uma obra conseguiu afetar tantas pessoas do sexo feminino?

            Li pequenos resumos na internet, bem como fragmentos ipsis litteris e, por meio deles, tentei compreender melhor a alma feminina. Mesmo que uma mulher não assuma seus desejos sexuais, e isso é muito comum, como todo ser humano, fantasia inúmeras coisas. E, dentre as incontáveis diferenças entre os sexos, a mulher é mais sutil na sua essência. Já na obra em questão, não só os atos, na maioria das vezes, submissos da moça chamada Anastasia, mas inclusive os pensamentos são expostos aos leitores. Daí o diferencial. A narração em primeira pessoa, feita pela mesma personagem, apresenta a busca pelo prazer somada ao medo e à ânsia em senti-lo.

            A mulher foi, por muito tempo, tolhida na sociedade. Não podia votar, deveria casar-se cedo para sair da casa dos pais e aliviar os gastos, era obrigada a casar-se virgem, apanhava dos maridos, era aviltada por seus pares… e ainda há algum medo arraigado na alma delas. Por isso, a exaltação do lado mais íntimo de uma mulher chamada Anastasia representa a personificação do eu-profundo de cada pessoa do sexo feminino.

            Muitos autores tentaram, por vezes com maestria, descrever o psicológico feminino. Destaco dois em especial: José de Alencar e Machado de Assis. Ambos escreveram obras primorosas, cujas personagens principais eram mulheres: Iracema, Lucíola e Senhora são de autoria do primeiro. Já Dom Casmurro, que nos apresentou Capitu, é um exemplo do talento do segundo.

            Em Iracema, a índia homônima levou sua tribo à derrocada depois que se entregou aos braços do homem-branco Martin. Sofreu, sofreu, sofreu e quando não aguentava mais passar por tantos lamentos, morreu amamentando seu filho Moacir, que significa “filho da dor”.

            Capitu era mulher mais decidida. “Mais homem que eu”, segundo o narrador-marido Bentinho. Ela conseguia, com seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada, atrair para si tudo o que quisesse. Se ela traiu ou não Bentinho não se sabe. Esse é o grande enigma.

            Já em “Cinquenta tons de cinza”, a mulher não deixa de ser submissa. O diferencial é que ela quer ser. Porém, não é que todas as mulheres queiram passar por isso, mas que, talvez, em determinadas ocasiões, seria interessante sê-lo. Ao ser dominada por Christian Grey (Grey, variação de gray, significa cinza e esta cor também se refere à tonalidade da gravata do macho-alfa da obra), ela sente um prazer absoluto, indescritível, contínuo.

            “Estou explodindo de tensão sexual. Ele me olha por um instante, avaliando o meu desejo, aí me agarra de repente e me vira.” Este fragmento da obra já demonstra claramente a razão da submissão. Explodir de tensão sexual, nada poderia ser mais intenso. Ela está ali para sentir prazer de qualquer jeito. Está apreensiva por isso.

            Apesar de se dizer que essa obra foi escrita para o público feminino, como estudioso dos textos, senti-me atraído a lê-la e o farei. Será o próximo livro da minha estante. Quem sabe, posso aprender um pouco mais da essência feminina. Nunca é demais conhecer as diferenças para aceitá-las cada vez mais.

 

 

 

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