Honra

3 set

Numa de minhas aulas de karatê, meu sensei questionou-nos a respeito da honra: “o que significa honra?”. Cada um de nós destacou aquilo que podia ser considerado sinônimo desta palavra, a meu ver, cada vez mais em desuso. Ele não continuou a conversa, mas salientou que cada um de nós deveria descobrir por si só o que tal palavra realmente significava. E senti, no olhar dele, que o desafio maior foi destinado a mim. “Quero ver se você consegue definir o que é honra”, complementou. Eu reiterei: “será meu próximo texto a ser publicado”.

            Hoje em dia, percebo que, cada vez mais, a palavra honra não mais é usada como nos tempos mais antigos. A sociedade ocidental deixa de lado o termo que  deveria designar a formação de caráter ou nobreza da alma. Quase ninguém faz mais nada por honra. Faz porque precisa fazer e nada além disso.

Na época feudal, por exemplo, cuidava-se da terra com honradez para que a família pudesse comer bem e viver com tranquilidade. Respeitava-se os limites do próximo.

            Até o século XX, as mulheres deveriam casar-se virgens, como forma de respeito aos seus pais e maridos. Aquelas que não “justificassem” a educação familiar e se envolvessem com algum homem, teriam perdido a honra. Assim, seria difícil arrumar um pretendente.

            O princípio básico do Código de Hamurabi, por volta de 1700 a.C, que versava sobre “olho por olho, dente por dente”, penalizava o criminoso de acordo com o dano que este causava a fim de se recuperar a honra.

            Também podemos destacar o contraste entre a cultura de direito e a cultura de honra. Na primeira, há um corpo de leis que rege os indivíduos. Um dos princípios básicos é que todos não devem se escusar das normas. Há um contrato social invisível que dita os caminhos a seguir. Já na segunda, os beduínos e povos de fronteiras, por exemplo, não se atêm aos padrões legais, pois não permanecem por muito tempo no mesmo lugar. Assim, os ditames são arraigados pelo costume.

            A honra está presente até mesmo no mundo do crime. Nenhum traficante, por exemplo, desrespeita o território de outro. Se isso acontecer, pode haver a pena de morte. Na cadeia, parece que há uma cartilha a seguir e ninguém pode descumprir as regras.

            Todavia, uma das definições de honra mais bela e solene que existe é o Código dos Samurais. Estes guerreiros viveram no Japão por quase oito séculos e eram protetores do imperador até o advento do militarismo. Desde pequenos, deveriam seguir o “caminho do guerreiro”, também denominado Bushido.

            O samurai, que significa “aquele que serve”, vivia por honra e, caso acreditasse que a perdeu, praticaria o suicídio para recuperá-la. Sua vida deveria ser erguida por meio de alicerces como as artes marciais, lealdade, coragem, respeito e, acima de tudo, honra, pois só com ela é que poderiam ser alcançados os objetivos.

            Em geral, esse guerreiro procurava seu próprio caminho, no qual a morte era uma consequência honrada. Ele não deveria jamais se entregar ou colocar seus companheiros em perigo. Mesmo sozinho, deveria lutar contra um exército se preciso fosse. A conduta deste homem deveria ser correta, coerente aos princípios, não importa se for a serviço da pena ou da espada. A preguiça não deveria existir, pois um homem com forças deveria cumprir seus objetivos sem pestanejar.

            Eu, infelizmente, não sou um samurai, mas procuro fazer o máximo para destacar minhas qualidades sem desprezar o próximo. Tento traçar meu caminho ao deitar-me para dormir e ao acordar para mais um dia de serviço. Sou leal aos meus amigos e feroz diante de meus inimigos. Faço do meu corpo a minha arma mais letal. Minha razão, meus braços e minhas pernas representam a força da pena e o poder da espada, respectivamente. E, assim, sigo minha trajetória, sempre respeitando os que me invejam, pois são eles mesmos que me fazem crescer.

 Dedicado ao sensei Alison Batista (vice-campeão mundial de karatê) e ao mestre Yasuyuki Sasaki, dois samurais.

Uma resposta to “Honra”

  1. Aix Bruno setembro 10, 2012 às 6:22 pm #

    É isso ae Miguel, da hora mermo em…e parabéns ae pelo blog, muito foda.

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